
Novos detalhes da investigação envolvendo o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, antigo controlador do Banco Master, revelam a existência de uma estrutura utilizada, segundo a Polícia Federal, para obter informações sigilosas sobre investigações que atingiam o banco e seus negócios.
As informações constam de um relatório da Polícia Federal encaminhado ao Supremo Tribunal Federal (STF) e divulgado após o levantamento do sigilo de documentos relacionados à chamada Operação Compliance Zero.
De acordo com os investigadores, pessoas ligadas a Vorcaro teriam conseguido acessar, de maneira irregular, procedimentos protegidos por sigilo no Ministério Público Federal (MPF), na Polícia Federal, na Polícia Civil e no Banco Central.
A PF aponta que parte desses acessos teria ocorrido mediante o uso de logins funcionais pertencentes a terceiros, além da extração de documentos e consultas não autorizadas em sistemas internos.
“Quero tudo”, teria determinado Vorcaro
Um dos episódios destacados pelos investigadores envolve buscas relacionadas diretamente ao Banco Master e ao Banco de Brasília (BRB).
Segundo o relatório, integrantes da estrutura ligada a Vorcaro realizaram pesquisas utilizando termos relacionados a “BRB” e “Master”, com o objetivo de localizar procedimentos que pudessem trazer informações sobre as investigações envolvendo as duas instituições.
Em uma das conversas analisadas pela PF, uma pessoa alerta que havia muitos processos e que uma busca ampla poderia chamar atenção.
A resposta atribuída a Vorcaro foi direta: “Quero tudo. Atenção total.”
Na sequência, o interlocutor teria respondido que faria um levantamento geral.
A PF identificou ainda consultas relacionadas ao CPF de Vorcaro. Ao todo, foram localizados 15 procedimentos, sendo 11 deles classificados como sigilosos.
Estrutura teria recebido R$ 1 milhão por mês
O relatório policial descreve a existência de um grupo denominado “A Turma”, que, segundo a investigação, teria atuado em diferentes frentes para proteger os interesses do ex-banqueiro.
Entre os integrantes apontados pelos investigadores estava Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, conhecido como “Sicário” ou “Felipe Mourão”.
Segundo a PF, Mourão seria um dos responsáveis pela obtenção de informações e pela coordenação de outras atividades atribuídas ao grupo.
A investigação aponta ainda que Vorcaro teria destinado aproximadamente R$ 1 milhão por mês para manter a estrutura em funcionamento.
Além da obtenção de informações, a PF relaciona ao grupo atividades de monitoramento, intimidação e coação de pessoas consideradas adversárias dos interesses do banqueiro.
Documentos sigilosos teriam sido enviados ao grupo
Em outro episódio citado pela investigação, um documento classificado como reservado pelo Ministério Público teria sido encaminhado a integrantes do grupo.
O material estaria relacionado a uma apuração sobre possível crime contra o sistema financeiro envolvendo a tentativa de aquisição do Banco Master pelo BRB.
Para a Polícia Federal, a obtenção desse documento indicaria que os envolvidos não estavam apenas acompanhando informações públicas, mas buscando dados protegidos por sigilo institucional.
Os investigadores afirmam que a estrutura teria passado a concentrar esforços também na obtenção de informações diretamente dos sistemas da Polícia Federal.
Até Interpol e FBI aparecem no relatório
Um dos pontos que mais chamaram a atenção dos investigadores foi a existência de mensagens que fazem referência a consultas envolvendo organismos internacionais.
A PF encontrou, no material analisado, uma imagem com a identidade visual da Interpol, acompanhada de mensagens mencionando também um relatório do FBI.
Segundo o relatório, uma das mensagens dizia que determinada informação havia sido ocultada para impedir a identificação de quem realizou a consulta.
A Polícia Federal informou que procurou a Interpol no Brasil para verificar a autenticidade da tela apresentada.
A organização internacional teria informado que a identidade visual mostrada na imagem não correspondia aos mecanismos de busca disponibilizados pela própria Interpol. Os investigadores, entretanto, levantaram a possibilidade de que a consulta pudesse ter sido realizada por meio de um sistema de outro país que utilizasse dados da organização internacional.
Polícia Federal identificou acesso a sistemas restritos
Outro elemento considerado grave pelos investigadores foi a identificação de informações relacionadas ao ePol, sistema utilizado pela Polícia Federal para procedimentos de polícia judiciária.
Segundo o relatório, mensagens encontradas no celular de Vorcaro indicariam que integrantes da estrutura tinham acesso a informações provenientes de sistemas restritos.
A investigação aponta que o mecanismo utilizado para obtenção dos dados envolvia credenciais funcionais de terceiros.
Para a PF, a utilização dessas credenciais teria permitido que informações protegidas fossem consultadas e posteriormente repassadas ao grupo ligado ao ex-banqueiro.
PF fala em estrutura organizada
Os investigadores descrevem a existência de uma estrutura organizada, com divisão de tarefas, que teria atuado em diferentes frentes para proteger os interesses de Vorcaro.
A análise do celular do ex-banqueiro foi considerada fundamental para o avanço da investigação.
A partir das mensagens, documentos e registros encontrados no aparelho, a PF passou a reconstruir como funcionaria a rede de contatos e quais seriam as funções atribuídas a cada integrante.
Entre as atividades investigadas estão obtenção ilegal de informações, monitoramento de pessoas, intimidação e outras ações que, segundo a polícia, teriam como objetivo proteger os interesses do grupo.
Banco Master foi liquidado pelo Banco Central
O Banco Master foi liquidado pelo Banco Central em 18 de novembro de 2025, após a autoridade monetária apontar grave crise de liquidez e comprometimento da situação econômico-financeira da instituição, além de violações às normas.
Antes da liquidação, o Banco de Brasília (BRB) chegou a tentar adquirir o Master, mas a operação acabou não sendo autorizada pelo Banco Central.
As investigações da Operação Compliance Zero passaram a apurar suspeitas relacionadas a negócios envolvendo o banco, seus dirigentes e diferentes agentes públicos e privados.
Vorcaro foi preso no âmbito das investigações e permanece no centro de uma ampla apuração conduzida pelas autoridades.
Investigação ainda está em andamento
Apesar da quantidade de informações reveladas nos documentos, as investigações continuam em andamento e os elementos apontados pela Polícia Federal ainda serão submetidos às instâncias responsáveis pela análise das acusações.
O relatório descreve suspeitas e indícios reunidos pelos investigadores, não representando, por si só, uma condenação definitiva dos envolvidos.
O caso ganhou novas proporções após a divulgação dos documentos que estavam sob sigilo e passou a envolver, além das suspeitas financeiras relacionadas ao Banco Master, possíveis irregularidades na obtenção de informações protegidas de órgãos públicos.
A Polícia Federal continua analisando os dados encontrados nos aparelhos e documentos apreendidos para identificar a extensão da estrutura e todos os envolvidos.